O samba da bateria

fev 08

O que é uma bateria de escola de samba? É um espetáculo que abala o corpo, o coração salta, e a pele arrepia. Lindo! O mestre de bateria e os auxiliares organizam a orquestra. Com gestos decifrados pelos integrantes.

A avenida é o lugar de destaque do desfile. A bateria canta o samba. O trabalho é sério e o domínio dos instrumentos faz a diferença. Precisa de ouvido para entender os acordes dissonantes, as batidas irregulares, o que atravessa.

Mas a beleza contagia quando o ouvido se depara com as paradinhas, o recomeço e o samba recolocado. O coração ferve e emociona a avenida. Nessas horas tenho orgulho de ser carioca e fazer parte dessa festa ainda popular. Que permaneça no lugar onde o samba surgiu.

Me curvo e agradeço o espetáculo.

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O homem; as viagens

jan 28

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

Carlos Drummond de Andrade
In As Impurezas do Branco
José Olympio, 1973
© Graña Drummond

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Processo criativo

jan 25

O processo criativo é um assunto muito interessante. Nós escritores nos sentimos sozinhos. Escrever é um ato solitário. Dai a necessidade de recolhimento. E mais ainda do silêncio. O caminho começa, os personagens aparecem e com eles as histórias surgem. Existem autores que começam por histórias. Eu não. Eu só inicío um trabalho quando tenho algum personagem. E junto com ele outros aparecem. Invariavelmente começo e o rumo que imaginei é desviado. A esquina muda de lugar. Surge a necessidade de jogar palavras no lixo. Drummond é lembrado: “escrever é cortar palavras”. E como cortamos. Não apenas porcurando a frase melhor, mas dando voz à pessoa que pede passagem. A dificuldade maior vem quando os persongens são completamente diferentes do que somos e dos nossos valores. Não dá para escrever com juízo de valor. Com ele nenhum escritor se faz. E nenhum personagem sobrevive.

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Memória

jan 21

Roma é uma cidade especial. Como os filmes de Fellini. A primeira vez que saí, peguei um ônibus na Via Nemorense, perto da casa da Isabel, uma grande amiga. Em vez de pegar o 63, achei que o 630 fosse o mesmo. Não exatamente. Costumo fazer umas associações que não sei de qual lugar elas surgem. E já desisti de entendê-las. Pelo erro, encontrei uma italiana, cujo avô mora em Porto Alegre. Eu tentando falar em inglês e ela num italiano perfeito. Nos entendemos. Logo passamos pela Via Veneto e ela me lembrou de La doce vita. Mastroiani, sempre Marcelo Mastroiani e seu talento irrecuperável. Não sei se vocês sentem assim: mas cada grande talento que morre, um pedaço se desfaz por dentro. Outros surgem, de outras formas. Mas aquele lugar daquele artista fica vazio. A grande vaidade dos artistas preenchida. O desejo da imortalidade.

Sem querer, por conta de uma manifestação que não sei o porquê, o ônibus desviou do caminho e descemos na Piazza Venezia. E dei de encontro com o Monumento em homenagem ao rei Vittorio Emanuelle II, erguido por Mussolini. Não podia chegar em lugar mais estranho. Neta de um exilado do fascismo. Impressionante como todo ditador ergue monumentos grandiosos. Esquecem que apenas o poder já demarca as suas fronteiras na história. São extremamente vaidosos. E marcam as gerações com ferro.

Lembro de meu avô. Das dificuldades que passou quando Mussollini subiu ao poder, o exílio, em 1922, as vezes em que foi preso pela ditadura Vargas. Momentos sombrios em que o Totalitarismo fazia festa no mundo. E quando cheguei ali, manifestantes lutavam por alguma questão. Era um apitaço. Se meu avô fosse vivo, certamente permaneceria ao lado deles. E como ele disse à amiga de minha mãe, certa vez: a Via Veneto não representa Roma.

Me deslumbrei com as grandiosidades, com as ruínas e mais ainda por estar em meio a tantos anos de história. É dela que vivemos e por ela que estamos aqui. Aquele dia, o passeio foi pela memória afetiva. Em meio à arte embaralhada com a política. Não fugimos dos fantasmas.

Monumento a Vitorio Emanuelle

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Ruínas

jan 19

Por que fiz História? A resposta surge na vida e em suas ruínas. De diferentes formas e matizes. Roma é carregada por elas. E quando paramos e nos transportamos aos tempos do Império romano, de Henrique VIII, a vida ganha sentido. Existimos. De diversas maneiras, em lugares diferentes. E o mais bonito: em outros tempos. Para alguns, ruínas representam o antigo, o velho, que deveriam ser jogadas fora. Eu vejo vida nelas. Eu vejo tempo. Eu vejo seres humanos em seus caminhos por desejos. Me emociono frente ao mundo em pedaços. Um mundo em que pessoas viveram. Merecem o nosso agradecimento de alguma forma. Não falo de grandes personagens. Falo de vidas em seu cotidiano.

Sem o passado e suas construções não há possibilidades. Da mesma forma que a literatura não se faz sem os clássicos.

Entre as ruínas das abadias de Henrique VIII e as do Império Romano, me perco e imagino que sonhos, desejos pulsaram e é através deles que a vida hoje se manifesta. Acrescida dos nossos. Faço parte dessa História. Todos nós fazemos.

IMGP0970Forum romano 4

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Natal em Roma

dez 25

O Natal em Roma não é consumista. Ninguém está estressado com compras como na nossa patriazinha- mãe gentil. Os romanos são divertidos. Ou você encontra os simpáticos, ou sai da frente que o trator das grosserias te atropela. Apesar de estar me sentindo em casa, não falo a língua. Mas quando tento uma palavra, sempre a palavra, ficam muito felizes. E começam a puxar conversa. Eu rio, querem saber de onde sou e perguntam pelo Brasil. A atendente da farmácia queria me desejar Feliz Natal em português, antes pensando que eu falasse espanhol. Rapidamente corrigida pela colega de trabalho. O guarda, em uma das salas de Rafael, disse que acabara de chegar do Brasil. Se deixasse ficaria parlando e eu perdendo a Escola de Atenas.

Os turistas invadiram o antigo Império. É lindo crianças tirando fotos, admirando o Belo nas pinturas e monumentos. Já crescem banhadas pela arte e cultura de todos nós.

Amanhã, eu volto, virei do Coliseu e a viagem será emocionante. Lembro da Sonia, minha querida professora de História antiga, estudiosa de Roma, e paraninfa da minha turma. Os reencontros nos refazem em todos os momentos. Voltarei diferente.

Bueno Natale!

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Roma está em festa

dez 23

Roma está em festa. Estamos no Natal. Conhecer os afrescos de Michelângelo e Rafael é entrar num labirinto de emoções. Com direito a se perder em definitivo. Mas a vida se faz pelo imprevisível. Outra vez me perdi e ao procurar a Fontana de Trevi, encontrei o Pantheon. Um amigo disse que a melhor maneira de conhecer o centro histórico é entregar-se ao labirinto. A história me fascina justamente porque é feita por nós. Diariamente. E no cotidiano de 25 a.C. nasceu o Panthéon. Encontro novamente com Rafael. Não mais no Renascimento. Mais uma vez me sinto em casa. Adoro contar histórias e vivenciá-las pelo emaralhado das teias que nos forma, torna a vida mais fascinante. Nos torna mais vivos. Mudei de lugar. Sou feita de histórias e me refaço trasnmutando-as em ficção. Hoje o ano de 25 a.C. é uma ficção que atravessou o tempo. Volto ao século XXI e não mais sou feita do mesmo barro. Misturo os tempos e vejo na realidade o que um dia foi apenas ficção. Ou é o contrário? Não importa.

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Por um Brasil literário

dez 16

Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2009

Marcela,

Hoje, me vi pensando como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser apenas um sonho, mas estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor exercida. Praticar a tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua diferença – e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nossas faltas, carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.

A leitura literária, a mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão. Passamos a escutar e compreender que o singular de cada um – homens e mulheres – é que determina sua forma de relação. Todo sujeito guarda bem dentro de si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz claro quando diante de um texto nos confidenciamos: “ele falou antes de mim”, ou “ele adivinhou o que eu queria dizer”.

Marcela, o texto literário não ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura, por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, Marcela, a leitura literária cria uma relação de delicadeza entre homens e mulheres.

Uma sociedade delicada luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças, despreza os privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito que nascemos com ele. Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas, alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí, compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários, é também uma figura política.

Quando pensamos, Marcela, em um Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar cuidados. Numa sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Lêem para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só depois, tornar-se ação.

Marcela, o Brasil Literário pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la?

Com meu abraço, sempre, Bartolomeu

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José – Drummond

dez 13

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse….
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

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O time do possível

dez 07

Dizer que futebol é feito de paixão não sai da área do clichê. Mas ver o time fazer gol na batalha pelo não rebaixamento, segue invicto. O time do Fluminense de 2009 entra para a história. Lembra a seleção de 1982. Não que Fred e companhia ganhem de cabeça nem perdem a bola para Paolo Rossi. O drible do nosso futebol perdeu-se entre milhões. Contudo este time fez gol de falta, de escanteio, de drible, tabelinha, de cabeça e enheu os estádios de pó de arroz. O único, dito por Nelson Rodrigues, tricolor. O verdadeiro. O que fez festa durante semanas na imaginação com gol de realidade. Recuperou a vontade de sonhar. O desacreditado com 98% de estatística para descer a ladeira rumo à segundona. O fantasma que retorna. O time que jogou com garra em comunhão com a torcida. Bonito de ver. Bonito de torcer. E mais bonito de fazer parte desse lugar. Não ganhamos título mas cada tricolor vive o gosto de ser campeão brasileiro. Por que não? Quando se trata de futebol todo clichê é bem-vindo ainda mais quando balança a rede. Por que não?

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