Dia internacional da mulher

mar 08

Um Beijo
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
“ao sucesso”
diria meu censor
“à escuta”
diria meu amor

(Ana Cristina César)

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O Mito – Drummond

fev 24

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Procura da Poesia – Drummond

fev 17

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

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Novos autores

fev 09

O Leonardo Schabbach, blog Na ponta do lápis, me encontrou no twitter. Teve a iniciativa de fazer entrevistas para divulgar novos autores. Fui escolhida para começar e fiquei muito feliz. Afinal, de que adianta escrever se não somos lidos? Deixo aqui o meu agradecimento ao autor.

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O samba da bateria

fev 08

O que é uma bateria de escola de samba? É um espetáculo que abala o corpo, o coração salta, e a pele arrepia. Lindo! O mestre de bateria e os auxiliares organizam a orquestra. Com gestos decifrados pelos integrantes.

A avenida é o lugar de destaque do desfile. A bateria canta o samba. O trabalho é sério e o domínio dos instrumentos faz a diferença. Precisa de ouvido para entender os acordes dissonantes, as batidas irregulares, o que atravessa.

Mas a beleza contagia quando o ouvido se depara com as paradinhas, o recomeço e o samba recolocado. O coração ferve e emociona a avenida. Nessas horas tenho orgulho de ser carioca e fazer parte dessa festa ainda popular. Que permaneça no lugar onde o samba surgiu.

Me curvo e agradeço o espetáculo.

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O homem; as viagens

jan 28

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

Carlos Drummond de Andrade
In As Impurezas do Branco
José Olympio, 1973
© Graña Drummond

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Processo criativo

jan 25

O processo criativo é um assunto muito interessante. Nós escritores nos sentimos sozinhos. Escrever é um ato solitário. Dai a necessidade de recolhimento. E mais ainda do silêncio. O caminho começa, os personagens aparecem e com eles as histórias surgem. Existem autores que começam por histórias. Eu não. Eu só inicío um trabalho quando tenho algum personagem. E junto com ele outros aparecem. Invariavelmente começo e o rumo que imaginei é desviado. A esquina muda de lugar. Surge a necessidade de jogar palavras no lixo. Drummond é lembrado: “escrever é cortar palavras”. E como cortamos. Não apenas porcurando a frase melhor, mas dando voz à pessoa que pede passagem. A dificuldade maior vem quando os persongens são completamente diferentes do que somos e dos nossos valores. Não dá para escrever com juízo de valor. Com ele nenhum escritor se faz. E nenhum personagem sobrevive.

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Memória

jan 21

Roma é uma cidade especial. Como os filmes de Fellini. A primeira vez que saí, peguei um ônibus na Via Nemorense, perto da casa da Isabel, uma grande amiga. Em vez de pegar o 63, achei que o 630 fosse o mesmo. Não exatamente. Costumo fazer umas associações que não sei de qual lugar elas surgem. E já desisti de entendê-las. Pelo erro, encontrei uma italiana, cujo avô mora em Porto Alegre. Eu tentando falar em inglês e ela num italiano perfeito. Nos entendemos. Logo passamos pela Via Veneto e ela me lembrou de La doce vita. Mastroiani, sempre Marcelo Mastroiani e seu talento irrecuperável. Não sei se vocês sentem assim: mas cada grande talento que morre, um pedaço se desfaz por dentro. Outros surgem, de outras formas. Mas aquele lugar daquele artista fica vazio. A grande vaidade dos artistas preenchida. O desejo da imortalidade.

Sem querer, por conta de uma manifestação que não sei o porquê, o ônibus desviou do caminho e descemos na Piazza Venezia. E dei de encontro com o Monumento em homenagem ao rei Vittorio Emanuelle II, erguido por Mussolini. Não podia chegar em lugar mais estranho. Neta de um exilado do fascismo. Impressionante como todo ditador ergue monumentos grandiosos. Esquecem que apenas o poder já demarca as suas fronteiras na história. São extremamente vaidosos. E marcam as gerações com ferro.

Lembro de meu avô. Das dificuldades que passou quando Mussollini subiu ao poder, o exílio, em 1922, as vezes em que foi preso pela ditadura Vargas. Momentos sombrios em que o Totalitarismo fazia festa no mundo. E quando cheguei ali, manifestantes lutavam por alguma questão. Era um apitaço. Se meu avô fosse vivo, certamente permaneceria ao lado deles. E como ele disse à amiga de minha mãe, certa vez: a Via Veneto não representa Roma.

Me deslumbrei com as grandiosidades, com as ruínas e mais ainda por estar em meio a tantos anos de história. É dela que vivemos e por ela que estamos aqui. Aquele dia, o passeio foi pela memória afetiva. Em meio à arte embaralhada com a política. Não fugimos dos fantasmas.

Monumento a Vitorio Emanuelle

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Ruínas

jan 19

Por que fiz História? A resposta surge na vida e em suas ruínas. De diferentes formas e matizes. Roma é carregada por elas. E quando paramos e nos transportamos aos tempos do Império romano, de Henrique VIII, a vida ganha sentido. Existimos. De diversas maneiras, em lugares diferentes. E o mais bonito: em outros tempos. Para alguns, ruínas representam o antigo, o velho, que deveriam ser jogadas fora. Eu vejo vida nelas. Eu vejo tempo. Eu vejo seres humanos em seus caminhos por desejos. Me emociono frente ao mundo em pedaços. Um mundo em que pessoas viveram. Merecem o nosso agradecimento de alguma forma. Não falo de grandes personagens. Falo de vidas em seu cotidiano.

Sem o passado e suas construções não há possibilidades. Da mesma forma que a literatura não se faz sem os clássicos.

Entre as ruínas das abadias de Henrique VIII e as do Império Romano, me perco e imagino que sonhos, desejos pulsaram e é através deles que a vida hoje se manifesta. Acrescida dos nossos. Faço parte dessa História. Todos nós fazemos.

IMGP0970Forum romano 4

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Natal em Roma

dez 25

O Natal em Roma não é consumista. Ninguém está estressado com compras como na nossa patriazinha- mãe gentil. Os romanos são divertidos. Ou você encontra os simpáticos, ou sai da frente que o trator das grosserias te atropela. Apesar de estar me sentindo em casa, não falo a língua. Mas quando tento uma palavra, sempre a palavra, ficam muito felizes. E começam a puxar conversa. Eu rio, querem saber de onde sou e perguntam pelo Brasil. A atendente da farmácia queria me desejar Feliz Natal em português, antes pensando que eu falasse espanhol. Rapidamente corrigida pela colega de trabalho. O guarda, em uma das salas de Rafael, disse que acabara de chegar do Brasil. Se deixasse ficaria parlando e eu perdendo a Escola de Atenas.

Os turistas invadiram o antigo Império. É lindo crianças tirando fotos, admirando o Belo nas pinturas e monumentos. Já crescem banhadas pela arte e cultura de todos nós.

Amanhã, eu volto, virei do Coliseu e a viagem será emocionante. Lembro da Sonia, minha querida professora de História antiga, estudiosa de Roma, e paraninfa da minha turma. Os reencontros nos refazem em todos os momentos. Voltarei diferente.

Bueno Natale!

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