O criancês
out 28
Anita brincava sozinha no parque. Era vigiada à distância pela mãe. Ela estava feliz mexendo na terra junto com balde e a pá. De vez em quando corria até a mãe e oferecia:
_ Quer mamãe? É bolo.
_ Bolo de quê?
_ De pimenta. Você gosta?
_ De pimenta?
_ É. Tem chocolate também.
A criança ficava horas mexendo. E remexendo a terra. Não queria ir embora. Era a maior choradeira. Às vezes a mãe se arrependia de ter inventado o passeio. Ela tinha que tomar banho, almoçar. Ir à escola.
Anita adorava a escola. Tinha três anos. E fazia a maior festa quando encontrava a professora e os colegas de turma. Quando começou os estudos, Anita sofreu pela saudade da mãe. Depois que conheceu Bruna ficou muito feliz. Viviam grudadas. Inseparáveis. Quando Anita encontrava a amiga, contava o que fizera no parque de manhã. E Bruna falava da nova brincadeira de esconder com o irmão. Adorava o irmão. Ele fazia todas as vontades dela. Anita não esperava a hora, ansiosa, para conhecer o irmão da Bruna. Nem interessava saber o nome. Desejava aprender as coisas que Bruna aprendia. O chato era quando tinham que ir embora. Todo dia criavam o maior caso para se separarem.
Inventar novas possibilidades para mesma brincadeira, não há adulto que dê conta de tanta energia. E capacidade criativa. Anita era assim. Às vezes os pais reclamavam da capacidade de estar sempre inventando um monte de coisas:
_ Meu Deus, essa criança não pára! Ela bem que podia ficar um pouco sossegada. Dormir um pouco.
_ Dormir, Otávio? Ela acabou de acordar e não pense que vai dormir tão cedo.
E Anita corria de um lado para o outro. Falava. Conversava com a amiga. Queria apresentar Castilha à Bruna. Ela ia adorar conhecer a nova amiga. O engraçado é que ninguém dava a menor bola para ela. Por quê? Anita desejava saber, mas só ela via a amiga. Por isso, os adultos não acreditavam que Castilha existisse. Também não tinha a menor importância, desde que continuasse brincando, para Anita estava tudo bem.
O chato era quando tinha que dormir. Escovar os dentes. Tomar banho. Comer. Se pelo menos fosse chocolate, chiclete, bala… ah! Para isso a vontade aparecia. Adorava quando os pais contavam histórias. Se imaginava como princesa e dançava. Se deixasse rodava, rodava horas sem se cansar. E ria. Ria muito.
A repetição gostava de Anita. Estava naquela fase de quando gostava de uma brincadeira:
_ De novo.
_ De novo.
_ De novo.
Quando menor só falava:
_ Ovo.
_ Ovo, Anita?
_ É mamãe, ovo.
_ Ah, você está falando de novo.
_ É, ais, ais.
Às vezes fica difícil de entender. Só quem convive consegue decifrar a linguagem da criança. Nem os pais, muitas vezes, conseguem saber o que a criança fica horas tentando dizer:
_ Tá tête.
_ O quê, minha filha?
_ Tá tête, mamãe.
Depois de algum tempo é que a mãe de Anita viu que a comida estava quente.
Anita sempre foi criativa. Adorava amassar argila, fazer coisas para a casa. Pintar. Desenhar. Ficava horas pintando, imaginando o que poderia fazer com as cores todas misturadas. Se sujava. Nunca ficava mais do que alguns minutos com a roupa limpa. E calçada. Sapato, para quê? Gostava mesmo de ficar descalça. E a mãe tinha mania de que tinha que ficar calçada. Tudo achava que ia ficar doente. Que mania! Queria brincar e falar com a Buna. Anita adorava a Buna. Nada de pronunciar Bruna. Qual a importância se ela entendia e aprontavam horrores.
Ia tudo bem até o dia que a mãe de Anita ficou grávida. Ia ganhar um irmãozinho. Anita não tinha muito idéia do que seria um irmãozinho. Sabia que a Buna tinha e gostava muito dele. Quando soube que o irmão era uma irmã, começou a chamá-la de rimã. A minha rimã para lá. A minha rimã para cá. Tudo o que fazia era junto com a rimã. Até o dia em que a rimã nasceu. E Anita viu que se tratava de um bebê. E ele roubava toda a atenção da mãe. Do pai. Da família toda. A primeira coisa que falou foi:
_ Mamãe, bota de novo na barriga. Ela é hororosa!
Quando a rimã chorava e a mãe tinha que ver o que o bebê tinha, Anita dizia:
_ Deixa ela chorar, mamãe. Deixa.
A criatividade para fazer com que tivesse atenção não tinha limites. Inventava coisas para que as pessoas percebessem que existia. Continuava ali. Não tinha ido embora. Na verdade, Anita estava com ciúmes. E não sabia. Os adultos não falavam com ela sobre isso. Apenas cochichavam. Sentia que alguma coisa estava diferente. Não sabia o quê.
Gostava mesmo era de brincar com a Castilha e com a Buna. Com elas continuava tudo igual. Por isso, Anita continuava adorando ir à escola. E brincar no parque. Adorava ver filme no vídeo, passava horas vendo e revendo a mesma história. Acabava e colocava de novo. Quando pedia para algum adulto ver junto, ia contando as coisas que iam acontecer. Sabia o filme de cor. De todas as formas. Não se cansava, via quantas vezes tinha vontade.
Vivia só o que tinha vontade até o momento de aparecer alguém para atrapalhar. O que mais Anita desejava era que a rimã sumisse. Mas ao mesmo tempo, sentia vontade de poder brincar com ela. Inúmeras vezes abraçava o bebê como se quisesse enforcá-lo. Sabia que em determinados momentos fazia alguma coisa que não estava certo, porque levava broncas dos pais. E aprendeu o que era ficar de castigo. Tinha que ficar sentada pensando. Não sabia o quê. Mas tinha que ficar pensando. Era o que sua mãe tinha mandado fazer.
Quando tinha aniversário era uma festa. Se fosse o seu. Melhor. Os dois momentos que mais gostava era ganhar presente. E apagar a vela do bolo. Apagava a vela e ela acendia. Adorava. Era mágica. Já sabia que no aniversário virava o centro de todos. Era paparicada. O tempo todo. Davam os presentes que pedia. O bom era quando podia comemorar mais de uma vez. Na escola. E em casa. Quando fez três anos, os seus pais resolveram dar uma festa num salão especial. Tinha tanto brinquedo! O que Anita mais gostava era poder brincar naquele espaço enorme com as amigas – Castilha e Buna.
Ninguém entendia, ela queria rir, rir, rir até não agüentar mais. Da mesma forma queria pular, pular, rodar, rodar, fazer as coisas um monte de vezes. Anita era assim, vivia rindo. Quando a rimã nasceu sentiu muita tristeza. As coisas tinham mudado de lugar, mas foi só ela crescer e poder começar a brincar que Anita se transformou em líder. Tudo o que Anita fazia, Alice queria imitar. Era muito bom! Anita só não gostava quando ela atrapalhava as brincadeiras com a Buna e com a Castilha. Não era toda hora que queria que a rimã participasse. Às vezes era difícil dela entender. Ela insistia. Às vezes sentia que preferia ser filha única. Sem rimã. Pior era quando resolviam comparar as duas. Não tinha nada a ver. Que mania! Anita já falava. Andava. Alice não falava. Andava mais ou menos. Sempre chorava muito. Mania que ela tinha de agarrar a gente. E o pior era que nem conversar sabia. Anita cansava de repetir.
O triste foi quando Anita e Buna tiveram que se separar no final do ano. Férias. Buna ia viajar. Ia para a casa da avó. Anita sabia que iam viajar também. As festas, a chegada do Papai Noel seria em casa com a família. O que mais chamava a atenção dela era, além de esperar pela chegada do Papai Noel, ver o menino Jesus na manjedoura. Adorava cuidar dele. Arrumar o presépio. E rezar para o anjinho da guarda. A coisa que mais pedia:
_ Por favor, anjinho da guarda, faça com que minha rimã fale logo e possa brincar comigo e a Buna. Ela precisa crescer logo.
Toda noite Anita rezava pedindo. Mas sabia que ainda ia demorar. Enquanto isso… esperava, pensando nas férias. E já tinha preparado a mala. Avisou à mãe:
_ Já arrumei a minha mala.
_ É, minha filha? O que você vai levar?
_ Vou levar a minha boneca, o meu balde com a minha pá, as fraldas da boneca e as roupas da boneca.
Eram vários sacos cheios de brinquedos. Todos enfileirados perto da porta. Foi a maior choradeira quando o pai disse que não podiam viajar com toda aquela tralha. Anita chorou muito. Não entendia o porquê de tanta confusão. Era o que precisava levar… não precisava de mais nada… Só dos seus brinquedos.